Recuperar a língua, conquistar o futuro: estratégias para a galeguizaçom social

A recuperaçom da língua galega deve assumir-se como um processo integrador que articule justiça social, identidade cultural e projeto nacional. O galego nom pode continuar a ser um ornamento simbólico nem umha língua litúrgica. É necessário que se viva como um idioma funcional, utilizado e valorizado em todos os domínios da vida quotidiana: na infância, no trabalho, na cultura ou no lazer. Para isso, é imprescindível umha estratégia coletiva, corajosa e transformadora, com políticas públicas decididas, iniciativas de base inclusivas e um compromisso ativo com a soberania plena do país.

A oferta institucional: da perseguiçom à promoçom

O abandono institucional do galego continua a ser um dos obstáculos principais para a sua normalizaçom. Ainda hoje, usar o idioma próprio nas instituiçons pode significar ser ignorado, ridiculizado ou até julgado, como o vizinho de Rianxo que foi retido pola polícia por pedir atençom em galego no seu centro de saúde. Frente a esta realidade própria de um apartheid linguístico, os concelhos e deputaçons governados polo nacionalismo devem liderar umha mudança estrutural que prestigie a língua através de umha oferta pública positiva, regular e coerente, acompanhada de recursos técnicos e humanos suficientes.

Do mesmo modo, o setor privado nom pode permanecer alheio à galeguizaçom. Empresas, cooperativas, comércio local e grandes firmas devem ser incentivadas, e quando necessário obrigadas, a garantir serviços em galego. Porém, para isto acontecer, deve-se trabalhar numha transformaçom do imaginário social em relaçom à língua que combine a mobilizaçom social com umha nova imagem que eleve o status simbólico do galego como idioma internacional, moderno e útil, inserido na lusofonia.  

O futuro joga-se na infância

A situaçom da mocidade é alarmante: menos de 30% das crianças usam o galego habitualmente. A substituiçom linguística começa já na educaçom infantil e acentua-se ao longo do percurso escolar. Com o quadro legal atual, a escola, em vez de proteger a língua própria do país, reforça muitas vezes a hegemonia do castelhano, empurrando o galego para os interstícios da formalidade académica, da correçom gramatical e de um uso ritual.

Perante isto, as experiências de educaçom popular mostram que outro caminho é possível. As Escolas de Ensino Galego Semente representam um modelo pedagógico auto-centrado, de manutençom e imersom linguística, enraizado na auto-organizaçom comunitária que garante a transmissom intergeracional da língua. Nestes centros educativos o galego é vivido com naturalidade, afeto e consciência. Trata-se de umha escola de cidadania, com umha orientaçom curricular crítica, alicerçada na defesa dos direitos humanos e no conhecimento da realidade nacional. Como as ikastolas ou bressolas noutras naçons sem estado, que contárom com um importânte suporte institucional, esta experiência merece ser apoiada, estendida e reconhecida como parte da soluçom, junto à necessária galeguizaçom do ensino público.

Diversidade como potencial: acolher, cuidar, criar

Revitalizar o galego é também reconhecer a pluralidade da Galiza contemporânea. O país é hoje um território habitado por pessoas de múltiplas procedências e realidades. A galeguizaçom deve ser, também, umha proposta inclusiva: para quem nasce aqui e para quem chega. Para isso, é necessário articular políticas de acolhida linguística —programas formativos públicos gratuitos de galego para adultos, mediaçom linguística nos serviços sociais e redes locais que facilitem o uso real da língua.

Neste caminho, os centros sociais autogeridos e os espaços comunitários som verdadeiros “espaços seguros” para neofalantes, em palavras do sociolinguista Joshua Fishman, onde o galego pode ser usado com liberdade, sem vergonha, nem medo à discriminaçom. Assim, o idioma conecta-se com luitas sociais, feministas, culturais, ecológicas e de classe. Lugares onde a língua é praticada como ato de pertença, como expressom de justiça e como laço afetivo, permitindo a compactaçom e fortalecimento da comunidade galego-falante

Ecofeminismo e soberania linguística

Num momento em que ganham força as perspetivas que entrelaçam ecologia e justiça social, o ecofeminismo e a ecolinguística oferecem chaves muito úteis para repensar a revitalizaçom, tal e como tem apontado a filóloga Maria Lopes. As mulheres, historicamente, fôrom fundamentais na transmissom do galego, mas também mais expostas à diglossia e à estigmatizaçom linguística. No entanto, essa posiçom de subalternidade pode converter-se em consciência crítica transversal, ativando alianças com outras luitas pola igualdade, diversidade e defesa do comum. O ecofeminismo lembra-nos que cuidar a língua é também cuidar o território, a memória e os vínculos.

Maximizar o potencial do ativismo linguístico

Nos útimos anos assistimos a um fenómeno de inversom das tendências sociolinguísticas de décadas anteriores: as novas geraçons carregam cada vez menos preconceitos a respeito do galego mas à vez tenhem menos competência linguística nele. O castelhano passou a ser a língua normal para a maioria da populaçom galega, especialmente a mais nova, e a língua que requer um esforço ciente é a própria deste país.

Algo que pode ajudar à transiçom de umha pessoa ao galego é que a partir do ativismo ajamos sobre as condiçons contextuais para que assim os passos individuais tenham cada vez menos de heroico. Habilitar normalidades alternativas atrativas, onde o nom-marcado seja ser galegofalante (assim como feminista, anticapitalista, antirracista…) e onde exista umha complicidade social para reverter a devastaçom executada polas políticas espanholizadoras, é algo a que dedicar tempo e planificaçom. Longe de ser algo inócuo, este confronto de modos de estar no mundo gera conflito. E, no canto de evitá-lo, devemos aproveitá-lo como a maneira de transparentar contradiçons sociais perante as que cada pessoa, num gesto de plenitude e madureza política, pode e deve alinhar-se para ser coerente com umha determinada ética. Na Galiza devemos estimular o potencial transformador e aglutinante desse projeto político, onde o galego nom é um acessório mas a expressom de toda umha cadeia de ideias de justiça, recuperando a politizaçom do discurso pola língua.

Independência ou desaparecimento

Todos os esforços apontados anteriormente som imprescindíveis, mas toparám cedo ou tarde com um limite estrutural: o atual quadro jurídico-político do Estado espanhol. A Constituiçom de 1978, ao estabelecer o castelhano como língua obrigatória para todas as pessoas e relegar o galego a um status subordinado, impede o pleno exercício dos direitos linguísticos do povo galego, condenando-o a ser “objetor de consciência”, como denunciara Carvalho Calero.Neste sentido, é urgente reabrir o debate político e social sobre a autodeterminaçom, nom só como desiderato nacional, mas como condiçom material para garantir os direitos coletivos do povo galego. Sem soberania plena, nom haverá galego com futuro.

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